ENTREVISTA DE JOHN FRUSCIANTE PARA O RESIDENT ADVISOR [PT/BR] - MAIO 2015
No último dia 5 de maio, foi liberada uma grande entrevista que John concedeu ao Resident Advisor sobre seu novo rumo na música.
ENTREVISTA DE JOHN FRUSCIANTE PARA A GROOVE [PT/BR] - MAIO 2015
John Frusciante foi entrevistado pela revista alemã Groove para a edição de maio-junho/2015.
UF INTERVIEWS/ENTREVISTA: NICOLE TURLEY
Entrevista exclusiva para o UF com a Srª Frusciante, Nicole Turley!
ENTREVISTA DE JOHN FRUSCIANTE PARA A AMPED MAGAZINE
John foi recentemente entrevistado por Stephen "SPAZ" Schnee, da revista Amped Magazine. A matéria foi postada no último dia 19 de março no blog oficial da revista. Em PT/BR.
ENTREVISTA DE JOHN FRUSCIANTE PARA A GUITAR PLAYER
John concedeu entrevista para a edição de abril da revista Guitar Player onde ele fala sobre por que deixou os Chili Peppers, sua nova fase na música eletrônica e mais. Em PT/BR.
ENTREVISTA DE JOHN FRUSCIANTE PARA A PREMIER GUITAR
Dia 03/mar/2014 foi publicada uma matéria com uma longa entrevista com John Frusciante no site da revista americana Premier Guitar. Confira a entrevista traduzida em PT/BR.
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM O BLACK KNIGHTS
O Universo Frusciante mais uma vez entrevista pessoas que fazem parte do "universo Frusciante". Confira a entrevista que fizemos com o grupo Black Knights.
John Frusciante em
JOHN FRUSCIANTE EM "THE HEART IS A DRUM MACHINE" - LEGENDADO (PT/BR)
Legendamos o depoimento de 45 minutos de John ao "The Heart is a Drum Machine", um documentário de 2008 de Christopher Pomerenke, que faz a pergunta: "O que é música?".
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM BRAM VAN SPLUNTEREN
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM BRAM VAN SPLUNTEREN
Entrevistamos Bram Van Splunteren, ninguém mais ninguém menos que o maior documentarista da história do RHCP. Ele documentou o antes e o depois de John em 1994.
Nova entrevista de John para a Billboard (PT/BR)
ENTREVISTA DE JOHN PARA A BILLBOARD (PT/BR)
Confira a tradução completa da forte entrevista que John Frusciante deu para a Billboard, publicada no site no dia 19 de agosto de 2013.
Sessão de fotos de John Frusciante - Por Mike Piscitelli
SESSÃO DE FOTOS DE JOHN FRUSCIANTE - POR MIKE PISCITELLI
O fotógrafo Mike Piscitelli liberou uma galeria de fotos de John Frusciante em seu site.
As fotos foram tiradas em Julho de 2012.
Entrevista Exclusiva com Toni Oswald
ENTREVISTA COM TONI OSWALD CONCEDIDA PARA O UNIVERSO FRUSCIANTE
John e Toni viveram um tempo mágico juntos na adolescência. Hoje os dois compartilham uma paixão pela Arte.
John Frusciante em 45º
GUITAR WORLD
A revista elegeu Eddie Van Halen como o maior guitarrista de todos os tempos.
John Frusciante aparece em 45º.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Anthony Kiedis: "John estava querendo ouvir The Getaway. Isso me deixou feliz!"

Em entrevista para o site Entertainment Weekly postada hoje (21), Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chili Peppers, respondeu duas perguntas que envolvem diretamente John Frusciante. A primeira foi se ele havia falado com John ultimamente e a segunda foi sobre como os Chili Peppers mantém um relação tão frutífera mesmo após tanto tempo juntos. A resposta foi "Você não consegue abandonar seu irmão". Veja as respostas de Kiedis:


EW: Após entrar e sair, o guitarrista John Frusciante deixou a banda em 2009 e foi substituído por Josh Klinghoffer. Você tem falado com John recentemente?

Kiedis: Não tenho falado com o John recentemente. Mas escutei algo positivo e adorável, que era sobre ele estar querendo escutar o disco. Isso me deixou feliz, escutar que: (a) ele se importou e (b) que não havia nenhum tipo de rancor no ar. Quando John saiu foi uma grande perda, porque ele é um parceiro de composição brilhante e simplesmente um grande ser humano musical. Mas isso também abriu a oportunidade de termos alguém novo. E muitas vezes o sangue novo cria uma nova química e talvez lhe dá aquela injeção de energia na bunda pra te manter seguindo por outros cinco ou dez anos.

EW: Como os Chili Peppers mantiveram uma relação de trabalho frutífera por tanto tempo?

Nunca tivemos nenhuma confusão sobre que tudo deve ser igual: a partilha do trabalho, do dinheiro, da alegria, da dor. Esse foi um grande passo na direção certa para termos o potencial para a longevidade, porque muitas bandas brigam: "Ei, eu escrevi isso!" Temos amor e respeito uns aos outros; nós brigamos regularmente. Nossas atitudes, nossos humores e nossos egos entram em conflito - mas conseguimos superar isso. Somos capazes nos virar. Flea e eu somos como irmãos. Eu acho que o relacionamento nunca vai acabar não importa o motivo, porque você não consegue abandonar seu irmão. Você simplesmente não consegue.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Chad Smith fala da sua atual relação com John Frusciante e a de Flea para a Rolling Stone



Chad Smith foi entrevistado pela Rolling Stone como parte da divulgação do novo álbum do Red Hot Chili Peppers, The Getaway, lançado na última sexta-feira (17/06). Em uma das perguntas o entrevistador, Andy Greene, abordou a atual relação do baterista com John Frusciante.

Você fala com John Frusciante? 
"Não tenho falado. Uma vez ou outra ele me manda uma mensagem ou um e-mail ou algo assim. Eu sei que o Flea encontrou com ele recentemente e eles passaram um tempo juntos. Mas eu não tenho tido muito contato. Ele está fazendo as coisas dele. Eu amo o John. Ele é um dos músicos mais incríveis com quem eu já toquei. Fico muito feliz que ele esteve no nosso grupo. Mas eu acho que ele está feliz fazendo as coisas dele, o que ele quer fazer, e isso é ótimo. Eu quero que ele seja feliz."
- Chad Smith - Rolling Stone - 20 de junho de 2016
Veja a entrevista completa em inglês, clicando aqui.


Tradução: Pedro Tavares
Agradecimentos: Ana Paula Machado Mancini

Inscreva-se no canal da John Frusciante effects no YouTube: bit.ly/1P0BIza

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quinta-feira, 16 de junho de 2016

John Frusciante lança novo álbum online: The Almighty Instrumental Mixes

The Almighty Instrumental Mixes, 2016
John Frusciante liberou gratuitamente ontem, 15, em suas contas no Soundcloud e Bandcamp, um novo álbum de instrumentais remixadas do último álbum do duo Black Knights, The Almighty, de 2015, que ele próprio produziu. O álbum se chama The Almighty Instrumental Mixes e já está disponível para reprodução e download. O álbum tem quinze instrumentais remixadas de The Almighty, lembrando que algumas músicas que saíram como bonus tracks da versão japonesa do álbum do Black Knights, como "Gang Related", "The Devil's Pig", "Shadows of a Panther" e "Venus Scroll", também já possuem instrumentais disponíveis pela internet.

John postou um texto em seu site hoje, 16, falando sobre o lançamento do álbum e sobre algumas técnicas de gravação. No fim do texto, ele deixou algo em aberto, dizendo "em 2013 evitei me mostrar na bateria. Hoje, entretanto...", o que pode ser uma dica sobre novos trabalhos baseados em bateria, assim como suas músicas de 2009 a 2012. 

Veja o texto traduzido e ouça o álbum:

Postei minhas mixagens instrumentais de todas as faixas do álbum The Almighty, do Black Knights, em que eu fiz toda a música, no meu Soundcloud e Bandcamp, onde elas podem ser transmitidas ou baixadas gratuitamente.

A capa para este álbum on-line foi feito por Aura T-09.

Toquei sintetizadores analógicos e digitais, drum machines digitais e analógicas, samples, violão e guitarra, e sintetizadores de guitarra dos anos oitenta. As guitarras são os únicos instrumentos que toquei com as minhas mãos de forma tradicional. O resto eu toquei via programação, o que também se faz com as mãos, embora não em tempo real; o ponto é que eu não toquei nenhum teclado ou drum pads.

Minha sala de lives, criada pelo contratante Jacques Lacroix, o engenheiro de acústica Vincent Van Hoff, e meu gerente de estúdio Anthony Zamora, foi o principal local que consegui sons de sala, reverbs e atmosfera sobre essas gravações. Mandei sons e performances do meu computador para a sala onde eles tocariam através de um alto-falante, fazendo a sala reverberar, que passaria então a ser captado por um microfone ambiente, o cabo que traria este som à minha mesa de mixagem, de onde ele iria retornar para o computador, onde eu iria combinar a acústica da sala com o som da fonte. Geralmente eu faço uma certa quantidade de equalização subtrativa no meu computador quando envio o som para a sala, em seguida na minha mesa de mixagem quando o som volta para mim, e também no computador novamente quando encaixo em toda a mixagem. Estas são duas imagens do quarto, cada uma de ângulos opostos.



Aqueles de vocês que não têm o espaço ou os meios para ter uma sala de live construída, certamente podem usar um banheiro para o mesmo fim. Você ficaria surpreso com o quanto você pode equipar uma sala por aplicação criativa da equalização subtrativa.

Uma técnica de sala que utilizei ao longo do tempo foi enviar uma performance gravada invertida para dentro da sala, gravar o que a sala fazia, em seguida virar a inversão, e colocá-la um pouco antes do som da fonte, exatamente posicionada de modo que o volume mais alto da reverberação da inversão terminasse exatamente quando o som da fonte começa. Isso criou o efeito do som parecendo vir a partir da sala, em vez de o som da sala ser proveniente da fonte de som; o inverso das leis da natureza que governam a acústica.

Eu também fiz a mesma coisa com o meu reverb digital AMS, a única outra fonte de reverb que eu usei no álbum. Um bom exemplo disso é a faixa “Techniques and Shockwaves”, em que, no meio música, as únicas batidas são apenas uma série de batidas em tons que são todas precedidas por um longo reverb invertido, como se cada som estivesse vindo do nada; um reverb natural e para frente, em seguida, acontece.

Devido aos anos de experiência com a minha sala de live, eu também tinha o hábito de fazer imitações de sons de salas de outros espaços, programando patches de sintetizadores modulares com os ataques das performances de um bumbo ou uma caixa, muitas vezes também enviando esses sons para a sala de live. Isso fez algumas baterias bem barulhentas nos lugares que eu fiz isso.

Estou muito orgulhoso dessa música, e acho que funciona muito bem como um álbum instrumental, embora não se destinasse a ser um. Há muita coisa acontecendo nestas faixas que ficam praticamente perdidas nas versões vocais originais.

Meus agradecimentos vão a Crisis, Monk, e os outros vocalistas que fizeram as performances que me inspiraram para silenciar e não silenciar as faixas das formas específicas eu fiz. Essas são suas contribuições escondidas ao The Almighty Instrumental Mixes. Isso resultou em alguns arranjos de canções instrumentais muito interessantes.

Este material foi gravado ao longo do primeiro semestre de 2013. Assim como durante os últimos nove anos, eu fiz essa música para aprender, e porque era o que eu queria ouvir. Eu queria ouvir grooves lentos, e explorar os diferentes tipos de sutis saídas de tempo que fazem grooves fluírem de maneiras diferentes. Durante vários anos anteriores a isso, eu estive muito ocupado com baterias, fazendo delas um instrumento principal, e por isso aqui eu evitei tocar super-rápido ou extremamente fora do tempo, ou fazer assinaturas de tempo excessivamente estranhas, em parte por conta de consideração musical aos outros vocalistas, mas principalmente porque eu não queria me mostrar na bateria naquele momento. Agora, entretanto...

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Entrevista de John Frusciante para o Phoenix New Times (1996) [PT/BR]

Há vinte anos atrás, John Frusciante estava afundado em drogas, vivendo de forma miserável e longe de qualquer holofote. De vez em quando, aparecia alguém interessado em saber como e onde estava aquele garoto que uma vez foi estrela do Red Hot Chili Peppers, mas que havia enlouquecido e largado a banda no auge do sucesso. Robert Wilonsky, do jornal Phoenix New Times, foi um desses interessados e fez uma visita a John Frusciante no Chateau Marmont Hotel, onde o ex-rockstar vivia. O resultado está no artigo original com a entrevista a John que foi postado no site atual do jornal. Confira a entrevista traduzida:


Seus dentes superiores estão quase desaparecendo. Eles foram substituídos por pequenas lascas de resina que se espreitam em gengivas podres. Seus dentes inferiores, finos e marrons, parecem prontos para cair se ele tossir muito forte. Seus lábios são pálidos e secos, revestidos com saliva tão espessa que parece cola. Seu cabelo é rente ao crânio. As unhas, ou os espaços onde elas costumavam existir, são enegrecidas pelo sangue. Seus pés, tornozelos e pernas são cravejadas com queimaduras de cinzas de cigarro sem filtro Camel que caíram despercebidamente. Sua carne também tem hematomas, feridas e cicatrizes. Ele veste uma camisa velha de flanela, apenas parcialmente abotoada, e calças cáqui. Gotas de sangue seco pontilham as calças.

Houve rumores que atravessaram o mundo do rock de Hollywood - histórias nunca negadas por ninguém, principalmente porque ele não se importava muito. Havia sussurros sobre como ele estava escondido em sua casa em Hollywood Hills, um lugar que poucos ousaram pisar por causa do mau cheiro. Era o cheiro da morte, como diziam algumas pessoas em momentos exagerados, ou, mais provavelmente, era apenas o cheiro de fezes e urinas de semanas e meses. Houve histórias de um ex-guitarrista de uma banda de rock estelar que agora via pouco do mundo exterior, que permanecia em sua casa para ler, escrever, pintar e tocar guitarra. E injetar.

Mas não são apenas rumores. John Frusciante está vivendo o clichê - a estrela do rock escondida no Chateau Marmont, onde nomes maiores do que ele já entraram e saíram. Quatro anos atrás, ele estava em uma das maiores bandas do rock, era guitarrista do Red Hot Chili Peppers enquanto o grupo estava saindo de rádios universitárias e indo para estádios. Agora ele é um transiente nos corredores sagrados do refúgio. A sala de estar de sua suíte é preenchida por dezenas de CDs (de Bowie a Devo aos seus favoritos, King Crimson e Nirvana) espalhados pelo chão, garrafas de água mineral, cigarros, revistas e pacotinhos de esterilizadores a base de álcool.

Frusciante está escondido no Chateau Marmont hoje porque ele foi expulso de sua casa em Hollywood Hills por não pagar aluguel, e agora não tem endereço fixo. Depois desta entrevista, ele foi expulso do Chateau, em seguida, expulso do Mondrian. E duas semanas depois, um conhecido do ramo que até muito recentemente falava com Frusciante todos os dias diz que não ouve falar do cara há mais de uma semana. Quando isso acontece, algumas pessoas simplesmente já pensam: bem, talvez ele esteja morto.

É Frusciante que primeiro menciona seu consumo de heroína – em cinco minutos de entrevista, não menos - mas, ao fim de uma noite cansativa de conversa, ele também pede que os detalhes de sua vida como viciado sejam velados. Ele explica que não quer policiais fodendo com a vida dele e que qualquer artigo que descrevesse seus hobbies poderia trazer problemas para ele. Mas isso é improvável, e um rápido olhar para a sua frágil figura revela a triste verdade de que seu silêncio nunca poderia esconder aquilo de qualquer maneira. Ele parece vinte anos mais velho do que era nos tempos de Peppers, e sua voz é grave e arrastada agora. Ele não come comida, em vez disso come enlatados com fórmulas de alto teor calórico, normalmente consumidos por idosos e inválidos. Ele gosta da maneira como seu corpo parece - um esqueleto coberto de pele fina - porque era assim que David Bowie se parecia no filme The Man Who Fell To Earth.

Frusciante diz que quase morreu em fevereiro; ele explica que seu corpo tinha “um doze avos do sangue que deveria ter, o sangue estava infectado. Meu corpo não estava criando nenhuma nova célula vermelha do sangue”. Então ele deixou as drogas por alguns meses e se limpou, tanto quanto podia. Mas o mundo não parecia certo para ele com seus olhos mortos e sóbrios, ele não se sentia bem através de mãos dormentes. Os espíritos não visitavam, os fantasmas não falavam com ele; a porta que a heroína havia aberto para ele havia sido fechada, e ele voltaria a forçá-la abrir mesmo que isso o matasse.

Quando Frusciante entrou para o Red Hot Chili Peppers em 1988, ele foi apontado como uma coisa jovem e limpa - um garoto de dezessete anos de idade, do sul da California, com cara de menino que estaria em contraste direto com o guitarrista original Hillel Slovak, que morreu em junho daquele ano de uma overdose de heroína. Frusciante juntou-se à banda e logo gravou Mother’s Milk, que continha o pequeno hit "Knock Me Down", uma canção anti-heroína sobre Slovak ("Se você me ver ficando alto, me derrube") que parece hilariantemente irónica agora, se não fosse tão patética olhando para trás. Afinal, o próprio vocalista Anthony Kiedis acabou de confessar que está usando depois de anos alegando que estava limpo; o baixista Flea era um usuário; e o atual guitarrista Dave Navarro é um ex-viciado. De fato, “the needle and the damage”.

Frusciante saiu dos Peppers em 1992 depois de passar um ano na estrada com a banda - um ano vendo multidões se multiplicando em quase todos os shows. Frusciante passou a odiar as multidões que cantavam junto cada palavra e dançava todas as músicas. Ele não conseguia entender a conexão entre o artista e o público, e passou a odiar as pessoas que estavam torcendo e o adorando sem nem o conhecer. Musicalmente ele se sentia sufocado pelas estruturas apertadas das canções e a forma como o público esperava que a banda tocasse os hits exatamente como eles haviam sido gravados. Frusciante havia sido metralhado por expectativas, sufocado como músico, ignorado pelos fantasmas que queriam que ele tocasse sua música.

“Nos primeiros dois anos que eu estive nos Chili Peppers, eu não me considero um bom guitarrista pelos meus próprios padrões”, ele diz agora. “Eu não me sinto como se eu estivesse cem por cento, tendo os sentimentos e as cores na minha cabeça e adequadamente os transferindo para a guitarra e para o mundo onde eles se tornam algo de concreto em vez de apenas um sentimento que flutua através do espaço. Mas aí eu me tornei bom nisso como uma pessoa poderia ser, e todas as noites, quando eu ia tocar, eu tocava diferentes solos e diferentes partes de guitarra. Eu tinha um bom relacionamento com os espíritos, com os fantasmas e com as cores no espaço exterior".

“A música é algo que os espíritos podem obter sentimentos, mas não é nada que um ser humano pode estar ciente. Exceto eu. Então, eles me dão tipo uma cor, uma vibração, um sentimento, um eco estético na minha cabeça, aí eu sou capaz de pegar e transformar isso em música”.

Quando voltou para Los Angeles, ele se sentou em seu sofá por quase um ano, deprimido e sozinho e incapaz de funcionar. Ele se perguntou se tinha tomado a decisão certa em deixar a banda, ou em entrar, em primeiro lugar. Ele estava convencido de que estava jogando seu talento fora. Ele só tinha experimentado drogas, fumado maconha “todos os dias aos vinte anos”, e diz que a primeira injeção de heroína foi durante a gravação de Blood Sugar Sex Magik, em 1991, e que depois flertou com a droga novamente. Mas ele finalmente se tornou um viciado como uma salvação final, e, com o tempo, novamente começou a escrever em seus diários, a pintar e a gravar. Agora, ele não pode mais ficar sem suas agulhas ou suas guitarras. Três guitarras estão espalhadas pelo chão de sua suíte no Chateau, e muitas vezes ele acaricia o braço de uma enquanto fala.

“Eu costumava gravar todos os dias”, explica ele. “É bom porque que eu faço tudo agora. Quando eu saí da banda, eu não conseguia ler livros, não conseguia olhar para a arte, não podia pintar, eu não podia tocar guitarra, não podia ouvir música, eu não podia fazer nada. Estava deitado no sofá deprimido, e, em seguida, me tornei um viciado e voltei à vida, me tornei feliz e comecei a tocar novamente. Mas eu não conseguia existir antes. Eu estava tão deprimido que não conseguia falar com as pessoas. Eu era a pessoa mais desesperada e miserável que você já viu. Pensei que eu estava cheio com a música e que eu iria morrer em duas semanas de depressão. Eu pensei: ‘A minha cabeça é a cabeça de uma pessoa prestes a morrer’. Achei que meu corpo estava literalmente desistindo”.

“E então eu decidi: ‘Vou virar um viciado agora’, e no dia seguinte eu estava feliz e melhor. Eu apenas decidi. Sem [heroína], eu não tenho controle sobre os pensamentos que assumem o meu cérebro. Eu me sento aqui e penso sobre a maneira como as coisas poderiam ter acontecido se eu não tivesse feito assim, se eu tivesse feito... Com heroína, eu era capaz de, de repente, ter o poder para me livrar dessas coisas que surgem na minha cabeça e pensar em outra coisa. Como se, de repente, eu não fosse o chefe da minha cabeça mais”.

No outono de 1994, ele lançou sou primeiro álbum solo pela American Recordings, marca pertencente a Rick Rubin, que havia produzido Blood Sugar Sex Magik. A Warner Bros. Records, a marca dos Peppers, tinha direito sobre o álbum devido a uma quebra de cláusula de artista no contrato de Frusciante nos Peppers, mas devido ao fato de ter deixado a banda e recusado entrevistas, a marca felizmente entregou a Rubin, que finalmente lançou o álbum sob a insistência de River Phoenix, Gibby Haynes do Butthole Surfers e Johnny Depp.

No final das contas, Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt vendeu cerca de quinze mil cópias – um número inexpressivo comparado ao seis milhões que os Peppers conseguiram com o Blood Sugar. Niandra Lades é um bizarro e complicado álbum, com duas dúzias de músicas que crescem com um progresso em partes e assustadoramente de acordo com o tocar do CD; qualquer fã dos Chili Peppers que ouviu Niandra esperou um estilo punk-funk e pensou que seus aparelhos estavam quebrados.

Mesmo assim, Frusciante deseja lançar outro álbum no início do próximo ano, e David Katznelson, vice-presidente da A&R pela Warner Bros. Records, confirma que ele planeja publicar outro álbum, chamado Smile From The Streets You Hold em algum dia da primavera. O álbum será lançado na própria casa de Burbank da Birdman Records, de Katznelson (casa de muitos renomados da velha guarda como Three Headcoats e Omoide Hatoba), com a Warner administrando a parte da distribuição.

“O material não é alienígena pra mim”, Katznelson disse sobre a música de Frusciante. “Rick e John têm um grande relacionamento, mas eu mantenho meu pensamento em relação a John em ouvir o álbum, e existem algumas músicas lá que eu achei muito inspiradas, e pensei que se nós produzíssemos outro álbum neste estilo indie, tudo isto ganharia mais foco do que se fosse produzido pela American ou Warner, ou outra que já tenha lançado tantos outros discos. Então eu chamei John e ele agarrou a chance”.

“Foi feito várias vezes”, Frusciante explica o próximo álbum. Uma música volta uma década, quando ele tinha dezessete anos e recém tinha se juntando aos Peppers. “Estes são alguns dos melhores projetos que já fiz”. Ele quis tocar algo da música nova, então caminhou em direção ao aparelho de som para que encontrasse um cassete de músicas não mixadas. Mas atrapalhando-se com a fita, avançando e retrocedendo ao ponto certo ele acidentalmente bate seu aparelho em uma caixa de leite. “Filho da puta!”, ele diz enfurecido, então chuta uma pilha de CDs que voam por toda a sala. Então, em um segundo ou dois, ele está calmo e concentrado novamente, seu temperamento está sob controle.

“Esta não é a fita do meu novo disco”, ele explica. “Trata-se de uma fita com as coisas que estão no meu novo disco, mas não todas as coisas que estão nele. Tenho um monte de coisas que não estão no álbum, mas as coisas que eu vou tocar para você estão no meu novo disco”.

Ele toca e aumenta o volume, e a sala enche-se de uma música que soa como se tivesse sido tirada de um velho espaguete de Sergio Leone. Seu feedback belo e misterioso, e o frenesi contido, letras loucas entre as desalinhadas melodias. “Kill your mama, kill your daddy”, vai uma frase particularmente memorável. A canção é seguida por um instrumental que parece girar sobre si mesmo - solo preenchido por trás da faixa e outros efeitos etéreos. É uma música caçadora - literalmente os sons não expurgados dos demônios que Frusciante traz à vida, uma reprodução sem edição, eletrônica dos sons dentro da cabeça dele e como ele ouve a sua própria música. Frusciante parece mais uma vez dentro do emaranhado de notas. Ele fecha os olhos e parece cochilar, deixando ainda um outro recém-aceso cigarro queimar até o fim e deposita suas cinzas em cima dele. Mas quando a música termina ele volta à vida.

“Heroína enfatiza o que você é”, explica Frusciante. “Tipo, se você quer gravar a música, ela vai ajudar você a se concentrar mais, mas se você quiser ficar deitado na cama e não fazer nada, ela vai ajudá-lo a fazer isso melhor. Ela ajuda você a fazer qualquer coisa melhor do que você quer fazer. Pelo menos para mim, e não para outras pessoas. Muita gente - amigos próximos, estão limpos, e eu estou contente que eles estejam limpos, eles sabem que quando eu estava limpo, eu perdia o brilho no meu olho, eu perco a minha personalidade, eu não estou feliz, estou meio vazio. Muitas pessoas dizem que sentem uma parede quando uma pessoa usa a droga, mas eu tenho três meninas que eu amo e considero minhas meninas, e uma delas veio e me visitou quando eu estava limpo, em fevereiro, e ela me chamou de ‘afterward’ e disse que sentiu uma parede”.

Frusciante insiste que quer entrar em um palco mais uma vez - a última vez foi realizada no Viper Room, no dia em que seu melhor amigo, campeão e protetor, River Phoenix, morreu do lado de fora - e que ele quer montar uma banda de verdade para executar suas músicas pop, as que são verso-refrão-verso, em vez de apenas um verso. E ele ainda gostaria de lançar as fitas das sessões de jam do Three Amoebas, que gravou com Flea e o baterista do Porno for Pyros, Stephen Perkins, anos atrás. Katznelson diz que tentará ajudar Frusciante a obter a sua música lá fora, reservando alguns shows, fazendo ele ter algum dinheiro para que ele não seja expulso de casa e do hotel. Mas ele percebe que não vai ser fácil, nunca há qualquer garantia com um homem que está se matando lentamente, enquanto ninguém faz nada para detê-lo.

“Muitos artistas têm os seus próprios demônios, e ele é um deles”, diz Katznelson. “Se eu fizesse julgamentos sobre as pessoas por causa de seu estilo de vida, eu não iria trabalhar com ninguém. Eu trabalho com um monte de artistas que têm problemas de substâncias ilegais ou demônios pessoais, mas um é tão problemático quanto o outro. Se eu estivesse esperando por ele em turnê e para tocar e tivesse dinheiro envolvido, eu puxaria o cabelo da minha cabeça. Mas não há muito dinheiro. Eu só quero que as pessoas ouçam o que ele faz. Se ele quiser tocar, ótimo; se não, tudo bem. Se ele quiser fazer entrevistas, ótimo, se não quiser, tudo bem. Acho que ele é muito... ele é muito usado para a sua própria pele”.

No final, Frusciante tornou-se apenas outro músico talentoso que mergulha uma agulha em seu braço a cada poucas horas - entre tocar e pintar, entre a ler e escrever, entre preparar um novo disco e encontrar um novo lar, entre vivos e mortos. Nestes dias, elencos de gravadoras estão mais uma vez cheios de homens e mulheres como Frusciante, embora tenham assessores de imprensa para esconder os seus hábitos de artistas. Desde a morte de Phoenix, a maioria dos outros amigos de Frusciante o abandonou, por vezes depois de tentarem intervir e salvar a sua vida, pois eles não suportam vê-lo em decadência na frente deles, também cansados de vê-lo sem pedir desculpas por se matar. Ele sabe que eles não gostam de ficar perto dele, mas ele não dá a mínima.

“Eles estão com medo da morte, mas eu não estou”, diz ele. “Eu não me importo se eu vou viver ou morrer”.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Entrevista de John Frusciante para a Fact Magazine [PT/BR]

John Frusciante foi entrevistado para a revista Fact Magazine, em artigo que foi publicado no último dia 14. Claramente é uma entrevista em que o entrevistador é um fã de Frusciante, portanto soa bem melhor do que as últimas que foram lançadas. E esse conhecimento de fã levou a perguntas mais diretas, coisas que nós realmente gostaríamos de saber: influências, visão sobre o mercado do rock (que foi abandonado por John), visão sobre seus fãs e possíveis futuras performances. Confira a entrevista traduzida:


PRENDA SEUS ÍDOLOS: John Frusciante sobre a fama, free jazz e a genialidade de Public Enemy

Jerry Judelson foi um estagiário de marketing na agência de comunicação Mass Appeal quando teve a oportunidade de entrevistar seu ídolo, sem saber onde sua relação com o músico recluso iria dar. Um ano depois, ele compartilha suas raras conversas com o tímido deus da guitarra convertido em empunhador de sintetizadores, abrangindo o hip hop, Ornette Coleman, e por que ele pode nunca mais tocar ao vivo.

John Frusciante passou por muitas evoluções em sua carreira. Ele entrou para sua banda favorita, os Red Hot Chili Peppers, como guitarrista em 1988 aos dezessete anos. Ele passou os próximos vinte anos entrando e saindo da banda, experimentando todos os altos inimagináveis e os baixos perturbadores que o estrelato do rock and roll tem a oferecer. Através disso tudo, ele permaneceu um produtivo artista solo, com seus álbuns partindo desde os experimentos em quatro pistas devastados pelas drogas de Niandra LaDes and Usually Just a T-Shirt (1994) ao xamanismo folk-rock acústico de Curtains (2005) e a envolvente obra-prima de estúdio The Empyrean (2009).

Após deixar os Chili Peppers pela última vez em 2007, seus trabalhos solos começaram a abranger estilos completamente novos: electro-pop experimental, acid house, uma fusão de jungle-rock atonal, e hip-hop old school. Seu último lançamento, o EP The Foregrow, lançado mês passado pelo Acid Test, é uma seleção de faixas criadas durante 2009 e 2010, um período em que Frusciante tinha apenas começado a usar o DAW Renoise para gravar e editar suas loucas jornadas com sintetizadores. Para quem já é fã de suas criações modulares, é um disco que vai encantar e deliciar. Para qualquer outro, bem vindo ao mundo de Frusciante.

A primeira vez que eu escutei uma música de seu catálogo solo foi em 2010. Era um lindo e calmo domingo durante as férias do Dia de Ação de Graças e eu estava em casa durante meu primeiro ano na Wesleyan University. Era meio da tarde e eu estava fumando um baseado no dormitório do meu amigo na Columbia. Nós achamos que seria engraçado irmos chapados até o Planetário Hayden. Ele colocou no som o Shadows Collide With People, o disco solo de Frusciante de 2004. Olhando para trás, após escutá-lo centenas de vezes, eu ainda lembro da força que me invadiu quando a primeira música do disco, "Carvel", com o clique quase inaudível do chimbal, mergulhou de cabeça num hino do rock and roll incomparável e desprovido de ego. Foi algo espiritual e visceral diferente de tudo que eu já tinha escutado. Cada faixa me levava cada vez mais fundo dentro daquele mundo de brilhantes paisagens sonoras e esqueletos de canções pop.

Na época, eu estava lutando na universidade contra um triunvirato em saúde mental de ansiedade, compulsões, e depressão. E ainda que essa primeira escutada ao Shadows tenha sido a respirada que eu precisava, ela não durou muito. Eu voltei a Connecticut para a segunda metade do semestre e um inverno amargo me jogou num buraco escuro. Eu não saia muito do meu quarto além de ir para a aula. Eu passava horas gritando em travesseiros e aprendi como fumar maconha de verdade. Durante esse tempo, por razões que apenas há pouco tempo eu comecei a entender, Frusciante tornou-se importante para mim. Eu fiz dele o meu ídolo, uma lenda, mas também um amigo de confiança. Sua história tornou-se minha paixão - o rockstar que tornou-se o autor recluso, o viciado que tornou-se espiritualista, o guitarrista que tornou-se eletrônico. Nenhum número de entrevistas no YouTube conseguia saciar minha adoração. É algo esquisito quando você venera uma pessoa pública - você sente que a conhece, no entanto o atrativo de toda essa troca é que você nunca a conhece de verdade. Elas nunca podem ser realmente suas amigas.

Eu me formei na universidade em 2014, o mesmo ano em que Frusciante começou a lançar hip-hop com os Black Knights, um duo de rap associado ao Wu Tang que ele tinha conhecido através de RZA. Em 2015, eu estava estagiando na agência de comunicação "Mass Appeal" quando o segundo álbum da colaboração foi anunciado. Meu estágio era em marketing, e embora eu não quisesse necessariamente ser um jornalista de música, eu não estava descartando a opção. Quando eu lancei ao editor a proposta de um review sobre o LP ainda a ser lançado, The Almighty, ele sugeriu que eu tentasse uma entrevista. Eu contatei o Black Knights, que atendem aos nomes de Rugged Monk e Crisis the Sharpshooter. Eles concordaram em um telefonema e eu reuni coragem para perguntar se John poderia se juntar. "eu tenho certeza que ele não está fazendo nenhuma parada de mídia," Crisis respondeu.

Eu tentei tranquilizá-lo. "Se ele está um pouco com medo de que será outra entrevista como a do Heavyweights Radio onde eu não sei nada sobre ele, você pode garantir a ele que esse não vai ser o caso. Nenhuma pergunta sobre os Chili Peppers".

Ele respondeu: "Ele é bem particular. Não temos vergonha de perguntar a ele mas ele não tem vergonha de dizer não".

Eu sabia disso. Eu me sentia culpado pela expectativa de tentar impor algo a ele, e egoísta, por tentar falar com ele. Eu me sentia desqualificado até para pedir. Ainda assim, eu já tinha pedido. Não parecia ser realista ele dizer sim - se eu conseguisse isso, então por que ninguém mais conseguiria? Apesar de minhas dúvidas, deu certo. Eu fui contatado por alguém do seu selo, e dois dias depois, John e eu iríamos conversar pelo telefone.

"QUANDO EU ESCUTEI O SEGUNDO DISCO DO PUBLIC ENEMY, A PRODUÇÃO DELE ME IMPRESSIONOU"

Eu passei os próximos dois dias constantemente me perguntando: "O que porra eu estou fazendo?" Aquilo tudo era perfeito demais, e me assustou. Mas eu me preparei bem. Eu retornei a todas as entrevistas antigas, e as novas. Eu perguntei ao meu amigo do planetário Jacob quais perguntas ele faria. Eu não conseguia me impedir de enxergar esse momento como decisivo, um tipo de realização narrativa no arco da minha relação com John e sua música. O que essa coisa iria significar para mim? Era o fim da história ou o começo? Como eu faço pra que ele saiba o que sua música significou pra mim?

Quando chegou a hora de ligar para ele, eu respirei fundo e disquei. Eu me sentia como um vigarista até o momento que ele atendeu.

"Aqui é o John". Foi esquisito escutar a voz falando comigo, a mesma voz que eu tinha passado milhares de horas escutando. Passamos duas horas falando, e já que o contexto da entrevista era seu novo álbum, eu comecei perguntando como ele tinha entrado no hip-hop.

"Inicialmente eu não estava interessado em hip-hop, porque eu era um garoto interessado em aprender a tocar guitarra e admirar bateristas, e drum machines simplesmente não me pareciam tão expressivas como bateristas de verdade", ele lembrou. "Então eu escutei o segundo disco do Public Enemy, e a produção dele me impressionou. Eu não fazia ideia que sampling e drum machines poderiam ser tão expressivas. O que Hank Shocklee estava fazendo ali era tão extraordinário de um ponto de vista musical, criando essa colagem de tantas coisas diferentes e transformando pequenos pedaços de música em uma obra de arte".

Primeiro, ele ficou "intrigado" com como a música passava a existir, mas com os anos ele começou a entender os aspectos técnicos de sampleamento e descobrir as capacidades expressivas que isso possui. Sua primeira incursão ao sampleamento foi "Sect in Sgt", uma síntese de 15 minutos de breakbeats, samples de rock clássico e musique concréte. Ele ouviu a canção inteira durante um sonho e tentou replicá-la com precisão. Achar seu caminho para dentro da música baseada em samples o fez perceber que ele poderia tentar fazer hip-hop também, como ele fez num trio de álbuns com o duo de rap associado com o Wu Tang, o Black Knights.

"Música como Autechre, Venetian Snares, Aphex e Squarepusher, é uma extensão do que Hank Shocklee esteve fazendo com Public Enemy", ele explicou. "Essa música parecia simplesmente sair do ar através de mágica ou algo assim". (Sua crença em uma fonte quase mística de criatividade humana foi mencionada em conversas várias vezes.)

Conversando sobre o Black Knights, ele parecia nervoso em dizer a coisa certa, e admitiu abertamente que sua parceria com Rugged Monk e Crisis foi um encontro incomum. "Existem várias coisas em cada um que nós nunca iremos entender. Em várias maneiras eu acho que sou um mistério para eles, e eles certamente são um mistério para mim". Não houve dúvidas no estúdio, no entanto - os rappers o confiaram com toda a parte da música, e ele confiou neles com todas as rimas.

"MÚSICA COMO AUTECHRE E VENETIAN SNARES É UMA EXTENSÃO DO QUE HANK SHOCKLEE ESTEVE FAZENDO COM PUBLIC ENEMY"

"No mundo do rock, existem muitas segundas opiniões, pessoas sendo inseguras e pessoas contratando produtores para fazê-los serem melhores do que são. Monk e Crisis não precisam de nada desse tipo. Eles acreditaram no que tinham escrito e foram até o microfone e cantaram. Eu sempre tive esse mesmo tipo de confiança como um guitarrista". Ao reconhecer cada um como opostos, cada lado da relação tornou-se mais inteiro. "Eu sempre tive amizades assim", ele gaguejou, "onde tentamos encontrar uma paz ao discutir um com o outro. Não sobre música - nossos papéis aí são especificamente definidos - mas sobre a vida, a raça, política ou convenções sociais".

Após falar sobre hip-hop, eu mencionei seu interesse em free jazz - um gênero que pode ser visto como um projeto de liberação política e social, assim como musical. Frusciante tocou progressões de acorde ao estilo de Alice Coltrane e solos de guitarra ao estilo de Sonny Sharrock no EP Outsides, e até tem uma tatuagem da capa do disco do mago do free jazz Ornette Coleman, Dancing in Your Head. Coleman tinha morrido algumas semanas antes da nossa entrevista, então eu perguntei se ele tinha algumas palavras pra falar sobre ele.

Ele pausou. "Você está brincando. Eu não sabia disso!". Eu me desculpei por ser o portador das más notícias. Ele estava aturdido. "Caralho, eu sempre acabo descobrindo sobre as pessoas tipo duas semanas depois. Nossa, bem perto de Charlie Haden, também". Eu perguntei como a música deles o tinha influenciado mas ele estava sem palavras; a notícia tinha acertado-o como um caminhão. "Eu estou muito chocado com o Ornette. Posso ligar de volta?". Ele desligou.

Eu recebi a ligação de volta no outro dia. Ele começou dizendo que não queria falar sobre Coleman, mas apenas alguns minutos passaram antes que ele retornasse ao assunto naturalmente. "Para mim como músico, o importante é aproveitar o máximo possível da história", ele disse. "Coleman encontrou a liberdade porque ele entendia a tradição, e ele cresceu e aprendeu e ensinou sua vida inteira porque ele tinha isso. Ele era uma pessoa gentil, uma pessoa humilde, e uma pessoa tímida e suave. Como músico, ele parecia ser um tipo de anarquista ou algo assim, mas a razão dele ter sido capaz de progredir através de sua vida inteira e ser tão bom quando tinha oitenta anos do mesmo jeito que quando tinha trinta é que ele nunca parou de se educar".

"Músicos nunca devem parar de estudar", ele continuou. "Você só vai conseguir ganhar dinheiro se tocar material original. Isso dá uma ideia bem estranha na cabeça dos músicos, e parece que no hip-hop especialmente, não há o entendimento desse tipo de aprendizado - esse tipo de aprendizado que todo músico de jazz tem que ter, que todo músico de folk tem que ter, que todo músico de rock tem que ter quando está começando, que é passar anos tocando a música dos outros. E com o rap, com meus amigos, eles estavam escutando um CD do The Chronic ou 36 Chambers, e quando eu estou tocando guitarra junto com eles e Monk está rimando junto, quando nós fizemos isso juntos era como se estivéssemos aprendendo juntos. Era como se o professor estivesse falando pelos alto-falantes e nós fossemos os estudantes".

Ao final da nossa segunda ligação, tudo que eu queria fazer era tocar junto com alguns dos discos de Frusciante.

"EU NÃO QUERO FAZER UM ESPETÁCULO DE MIM MESMO DA MANEIRA QUE EU FAZIA QUANDO ESTAVA NO RED HOT CHILI PEPPERS"

Por meses, eu ignorei a situação. Eu usei uma única citação numa matéria para a "Mass Appeal" e segui para fazer outra reportagem. De algum jeito, eu sentia que enquanto eu mantivesse a entrevista fora do olho do público, nossa relação era uma amizade autêntica ao invés de um compromisso profissional.

Menos de um ano depois, John anunciou ao mundo que estaria lançando o EP Foregrow. Eu me senti incapaz de ter seu número no meu celular e não usar. Sem pensar eu lhe enviei uma mensagem para saber se ele falaria comigo sobre o novo disco. Eu esperei um dia e ele concordou: "Claro".

Dessa vez as coisas se saíram mais naturalmente. Ele sabia que nossa última entrevista não tinha resultado em nada além de uma única citação. Ele pareceu meio confuso. Por que esse garoto teria feito uma entrevista de duas horas para apenas uma miserável citação?

Rumores diziam que o EP Foregrow era influenciado por John Carpenter e movimentos de dança. Acontece que era apenas para atrair nerds de música. Ele rapidamente afastou ambas declarações, me assegurando que quando o EP foi gravado em 2009, ele não tinha nem escutado as músicas de sintetizador do diretor de filmes de horror nem do estilo de dança de Chicago, embora desde então ele tenha se interessado no último. Esse incidente mostra como Frusciante adora se esconder em sua arte, particularmente sob seu novo aspecto. "Eu sempre fui muito cuidadoso em como incorporar a guitarra na música eletrônica. Eu não quero fazer um espetáculo de mim mesmo como guitarrista da maneira que eu fazia quando estava no Red Hot Chili Peppers. Eu quero estar dentro da música, e não do lado de fora para chamar sua atenção".

O EP saiu no selo Acid Test de LA, administrado por Oliver Bristow. "Ele escolheu as músicas, não eu," disse Frusciante. "As músicas no disco Trickfinger foram gravadas em 2007, embora no álbum diga que foi gravado em 2008 - aquilo foi um erro. E em 2009, após eu já ter começado a trabalhar com Aaron Funk [Venetian Snares], eu parei de gravar direto das máquinas para o mixer, depois um gravador de CD, e passei a gravar no computador pelo Renoise. Ainda usando minhas máquinas, mas o Renoise se tornou o gravador para que eu pudesse fazer overdubs e coisas como na segunda música, "Expre'act", onde o andamento está constantemente mudando. Isso é algo que eu estava doido pra fazer, porque é algo em que o Autechre fez coisas maravilhosas, e o Venetian Snares também. Isso é algo que você não pode fazer se está simplesmente sincronizando todas suas máquinas sem um relógio mestre vindo do computador".

Parecia que John havia preparado seus tópicos sobre o álbum, e ele foi bem direto, o que parecia esquisito. No fim da nossa entrevista ele pediu desculpas por ter bebido muito café. "O que também foi muito empolgante pra mim sobre ter um computador foi o fato de eu poder fazer o que equivale a editar, que é quando uma seção da música é totalmente diferente da próxima seção", ele continuou, cafeinado. "Eu sempre gostei no rock progressivo quando uma banda tipo Yes tem uma canção longa com várias seções que claramente não tinham sido feitas de uma vez só. Quando a atmosfera e o ambiente inteiro são completamente diferentes e são como canções diferentes. Eu estava tentando fazer essa mesma coisa dentro uma canção de seis ou sete minutos". Há uma falta de um bom rock progressivo hoje em dia, ele concordou, "e o que finge ser isso é besteira. Eu não considero como rock progressivo, é tudo idiotice de heavy metal ou o que seja".

Apesar de sua participação em uma das maiores bandas do mundo, ele é cauteloso ao descrever sua música recente como "um monte de solos de guitarra esquisitos anti-rockstar". Ele continua, "As improvisações de Kurt Cobain são solos bem impressionantes porque é mais sobre sua energia, seu relaxamento, sem tentar impressionar com dedos rápidos ou o que seja. Sem aderir a coisas como permanecer em uma nota só - só tocar a nota que você quiser. É assim que é na música eletrônica". O ideal anti-rockstar de Frusciante é uma rejeição do estilo altamente técnico de tocar guitarra que dominou as ondas aéreas nos anos 70 e 80. "É por isso que eu sempre fui muito cuidadoso ao incorporar guitarra na música eletrônica. Eu não queria fazer um espetáculo de mim mesmo como um guitarrista da mesma maneira que eu fazia quando estava no Red Hot Chili Peppers. Eu queria estar dentro da música, não do lado de fora para chamar sua atenção."

"OS MELHORES MÚSICOS MUITAS VEZES TEM QUE SE ESCONDER PARA SEREM ATRAENTES AO PÚBLICO. ERA NO QUE DAVID BOWIE ERA UM MESTRE"

Sua voz inconfundível lhe fez ter dificuldades similares. Quando mostrei aos meus amigos a música eletrônica de Frusciante, eles dificilmente acreditaram que era o cara dos Chili Peppers - até que ele começou a cantar. Seus backing vocals eram um componente essencial dos sucessos populares da banda; é difícil remover-se quando o mundo já escutou tanta coisa de você.

Numa postagem recente em seu website, ele escreveu sobre um conjunto de normas líricas que começaram a se amalgamar para ele em 1997 - uma filosofia que permitiria que ele escondesse sua individualidade, como ele explicou. "Eu estava vivendo na casa de uma mulher que era uma bruxa e uma ocultista, e ela me deu uma cópia do Book of Lies de Aleister Crawley. Eu estava lendo aquilo e eu também tinha o livro que a esposa do Ian Curtis escreveu [com as letras do Joy Division atrás] e vi uma conexão entre os dois, que era que a pessoa estava escondida, a personalidade estava oculta, e eles não iriam se dar ao trabalho de explicar o significado do que eles disseram. E ainda assim você sente que eles estão revelando mais de si mesmos do que estariam se estivessem cantando alguma balada romântica, sentimental ou algo assim".

O aspecto chamativo da sua fama enquanto no rock ainda parece pairar alto como um obstáculo percebido à criatividade de Frusciante. É claro, sempre foi. Nas velhas entrevistas que eu assisti tantas vezes, ele sempre rejeita que "a imagem é o que vale", a ideia do artista como um objeto, um culto da personalidade.

"Você não pode ser atraente às pessoas e ser sincero ao mesmo tempo. Muitas vezes os melhores músicos tem que se esconder para serem atraentes ao público. Era no que David Bowie era um mestre. Ele estava se escondendo o tempo todo. Ele sempre era entrevistado como um personagem, e ele estava escondido como uma pessoa dentro desse personagem. E eu acho que esse era a maneira correta de lidar com um mundo onde é entendido que se você quer o apoio de uma gravadora, você tem que se vender. Se você vai ser falso e você vai ser insincero, transforme isso em uma forma de arte! E foi isso que o Bowie fez. Mas nem todos tem esse talento".

Ele gosta da entrevista de 1971 de John Lennon para a Rolling Stone, em que ele repudia a mitologia dos Beatles, fala merda de seus ex-colegas de banda, e diz que seus fãs são um monte de burgueses hipócritas. Frusciante pode não ter o mesmo tom sarcástico e político de Lennon, mas ele quer falar com seus fãs de uma maneira semelhante, para dizer a eles que seu ídolo é uma miragem. Foi o que Frusciante quis dizer quando disse que "não faz mais música para o público" - ele não estava se referindo a indivíduos, mas o público de forma mais ampla, a força social monolítica que limita e define o que é arte popular. Ele desejava destruir essa influência.

A última pergunta que lhe fiz foi sobre a performance ao vivo - porque não era mais atraente para ele? Seu último show solo foi em 2005, mas de maneira egoísta, eu mantive esperança de um dia vê-lo tocar.

"A música vem de dentro do músico", ele respondeu, "e quando você está em turnê, você está ciente o tempo todo da impressão que você está passando às pessoas olhando pra você e ouvindo você. Lhe dá a sensação de ser um objeto. E eu acho que a maioria dos músicos estaria mentindo se dissessem que não enxergam, após fazer turnês por um longo tempo, o próprio público como um monte de objetos. Eles objetificam você, e você por sua vez objetifica eles. Eles respondem da mesma maneira para as mesmas coisas todas as noites. Eles parecem máquinas, a um certo ponto".

Não me surpreende que ele se sinta mais confortável fazendo música com máquinas, hoje em dia. As pessoas tentam desesperadamente não serem robóticas, e ainda assim quando são parte dessa multidão, é exatamente o que elas se tornam. A noite após a nossa segunda conversa, eu fechei meus olhos com Shadows estourando meus headphones e escutei um verso que nunca tinha feito muito sentido pra mim antes: "Omitir-me como um favor a Deus. Sofrer o destino porque é o único elevador que você tem". Eu percebi que, assim como a humildade de Ornette Coleman lhe permitiu ser um visionário, Frusciante tenta manter seu ego fora de sua arte, na esperança de ser um veículo para algo maior.

Tradução: Pedro Tavares

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